A nossa universidade e a deles

O ano de 2015 foi um ano muito duro para a universidade brasileira – se é que podemos chamar assim este múltiplo e diverso sistema de educação superior em nosso país. A chamada “ideia de universidade” nunca teve um cariz homogêneo no Brasil, sangrado por colonialismos agrestes e reatualizados por novos autoritarismos. A dita “universidade brasileira” aconteceu de sopetão – no começo do século XX um conjunto reduzido de ilustrados das classes dominantes se viu na necessidade de criar uma instituição que superasse a fragmentação de escolas isoladas – fundando a Universidade do Brasil, hoje UFRJ. Algum tempo depois, outros grupos em diversos estados – destaca-se o caso de São Paulo, com a fundação da USP – promoveram unificações de faculdades em instituições novas, iniciando então tradições nas produções acadêmicas/científicas no Brasil.

Se hoje o diagnóstico de crise das universidades é inegável, talvez os sintomas atuais remetam a um problema histórico. É muito significativa a afirmação de Roberto Leher, reitor da UFRJ eleito em um processo de intensa mobilização: nunca houve no Brasil nenhuma fração burguesa que apostasse na universidade como parte de construção de um projeto de nação. Diferente de nossos vizinhos latino americanos, cujas burguesias nascentes defenderam o papel das universidades para o desenvolvimento nacional e estabeleceram grandes embates contra o domínio da Igreja nestas instituições, a universidade brasileira foi historicamente marcada por uma espécie de modernização do latifúndio. Os filhos de fazendeiros eram basicamente aqueles que conseguiam ingressar nestas instituições, com raríssimas exceções, e cuja mudança substancial só passou a ocorrer de poucos anos para cá. A universidade desde então é deles.

Ainda que o padrão de acesso à universidade brasileira possa ter mudado e muito – o que motivaria não só um como diversos textos a respeito – o central permanece intocado: a universidade brasileira segue sem um projeto próprio, sem pensar a sua própria identidade, sem responder a uma pergunta básica: o que faz esta instituição ser o que ela é hoje? É possível que a resposta a esta pergunta resulte em dolorosas reflexões. Não enfrentá-las pode fazer com que esta crise que vivemos se prolongue indefinidamente.

Pensar a função social da universidade é necessário e urgente: esta universidade tem algo que possamos chamar de nossa? Quando dizemos nós, estamos nos posicionando do lado daqueles que sempre lutaram com um pé na soleira da porta e outro fora, como que para dar passagem aos que, uma vez lá dentro, ainda se sentem outsiders. Porque se hoje a universidade não repensa a que(m) serve, então se posiciona favoravelmente aos mesmos filhos e netos de fazendeiros que encaram a instituição como apenas mais um pasto seu. A universidade deles está em crise: mesmo com todas as investidas de cortes de verbas, com a tentativa de criminalizar setores que lutam, com as denúncias de assédios morais e sexuais, racismos institucionais, não conseguem parar um processo sem volta: estamos pensando mais e mais sobre o que queremos com a nossa universidade.

A nossa universidade ainda não existe, ela é uma utopia a ser construída. A universidade pública, gratuita, de qualidade, para todos e todas, laica e socialmente referenciada nunca existiu no concreto, mas este projeto é o que nos move. É preciso extirpar da universidade deles todo tipo de autoritarismo, elitismo, demagogia, colonialismo. É preciso que a nossa universidade seja a universidade da alteridade, em que o Outro seja enxergado, em que os debates sejam para novas sínteses, ou que as antíteses saibam se respeitar.

A nossa universidade só será possível com muitas lutas e rupturas, algumas para muito além da instituição – tentam mercantilizar a tudo, dificultar nossa permanência, roubam-nos o tempo da vida para produtivismos fúteis ao invés de enfrentarmos o desafio da necessidade – dos movimentos sociais, do povo, dos trabalhadores, das escolas, dos hospitais. Afinal de contas o capitalismo procura nublar qualquer luz que aponte saídas; mas nós seguimos insistindo.

Como contribuir para pensarmos “Se A Universidade Fosse Nossa”?

Foi a partir destas reflexões que surgiu a proposta de pensarmos num espaço de reunir utopias e demandas, movendo-nos pelo questionamento aparentemente simples: e se a universidade fosse nossa? A proposta é criarmos uma plataforma para compartirmos, em meio a tantas dificuldades e tantos “nãos” colocados por governos ou reitorias, quais experiências nos ajudam a propor saídas pela positiva. A comunicação pela internet nos permite que as contribuições cheguem de diversos cantos do país, dos setores mais diversos – professores/as universitários/as, estudantes, técnicos/as, movimentos sociais da educação, trabalhadores/as da educação básica.

A contribuição pode ser sistemática – para aqueles e aquelas que se propõem a serem colunistas fixos – ou então por meio do envio de textos pontuais. Queremos incentivar a reflexão, o debate, rodas de conversas e manifestações que coloquem na ordem do dia a construção e a disputa do nosso projeto. Nossos dois grandes eixos seriam pensar a questão do financiamento e da democracia – intimamente articulados. O financiamento pois é a garantia material de um projeto político – que temos o dever de pensar coletivamente – não apenas em termos do quantitativo de verbas, mas das decisões políticas sobre onde e como aplicá-las. Isso tem direta relação com o outro eixo – a democracia, não só pensada em termos de estruturas de poder internas, mas também nos debates historicamente silenciados por esta instituição. E como todo espaço de utopia, também estamos abertas a pensar sobre questões outras, como a arte, a estética, e tantas mais que possam surgir no debate.

Crise, no ideograma chinês, pode significar tragédia ou oportunidade. Que seja a oportunidade para a nossa universidade, e a derrocada da universidade deles. Esperamos a partir deste esforço coletivo, contribuir para um espaço de debates rico e plural.

Equipe “Se a Universidade Fosse Nossa”