Se a Universidade Fosse das Mulheres, não faltariam vagas nas creches universitárias

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Por Annie Schmaltz Hsiou

Foto: G1
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A luta histórica por creches foi impulsionada por diversos setores de movimentos sociais de mulheres trabalhadoras, feministas e dos sindicatos desde a década de 70, sendo um marco referencial na educação infantil brasileira. A inclusão desta pauta no âmbito da educação brasileira permitiu o fortalecimento de novas ferramentas e experiências pedagógicas para crianças de 0 a 6 anos.

 

Além de um direito à aprendizagem da criança em desenvolvimento, as creches e pré-escolas são um importante direito da mulher trabalhadora. Durante o processo de luta pelo direito à creche, diversas leis vigoraram para garantir a ideia de creche nas universidades e demais locais de trabalho, concomitante com a ideia de creche para os filhos de trabalhadores/as brasileiros/as.

 

Foi nesse contexto de reivindicações dos movimentos sociais, com a vigência de dispositivos legais, que as creches passaram a ser uma luta das comunidades universitárias como um direito de assistência à criança e da mãe que trabalha e/ou estuda. O claro avanço das políticas públicas na educação infantil permitiu o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas e científicas no âmbito das creches, principalmente nas creches e pré-escolas das Instituições de Educação Superior (IES), proporcionando diversas atividades-fim à universidade e baseando-se no tripé ensino, pesquisa e extensão, tais como: formação pedagógica, principalmente no campo dos estágios em licenciatura e magistério (formação de educadores), formulação teórico-prática em educação infantil (pesquisas educacionais), promoção de atividades entre faculdades e creches através de iniciativas de cultura e extensão (serviço odontológico, enfermagem, nutrição, pediatria, etc).

 

Defender a educação infantil como obrigatória dos zero aos seis anos é defender as crianças e seu direito a uma oportunidade de desenvolvimento pleno, visto que é nesta fase da vida que se formam as bases para o aprendizado futuro. É por isso, inclusive, que a concepção de creches como um local de assistência social foi substituída pela concepção de educação infantil, um momento de aprendizado e desenvolvimento das crianças.

 

Atualmente estamos vivendo um momento de retrocesso dentro das IES, pois nas poucas em que existem creches e pré-escolas, elas estão sofrendo processos de desmantelamentos sistemáticos. Através de um diagnóstico preliminar, o avanço da terceirização, combinado à aposentadoria de educadores e demais servidores, têm provocado a extinção dos quadros funcionais nas universidades, na medida que não há reposição de educadores e outros profissionais. O bloqueio da expansão no número de vagas para a comunidade universitária e a ampliação dos auxílios como vale-creche, são fatores que aceleram o processo de fechamento das diversas creches e pré-escolas universitárias, além de ferir aspectos legais e agravar a situação de estudantes quanto à permanência estudantil.

 

Se a Universidade Fosse Nossa, a manutenção e expansão das creches e pré-escolas poderia fazer da universidade um espaço mais diverso e plural, com uma real política de educação infantil, além de vocalizar as demandas dos movimentos de mulheres/feministas e estudantis para atender toda uma demanda da mulher trabalhadora e estudante.

*Annie Schmaltz Hsiou é professora desde 2011 no Curso de Ciências Biológicas, Departamento de Biologia, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.

Annie é mãe-crecheira da Creche/Pré-escola Carochinha, seu filho de 23 meses ganhou o direito à creche através da justiça em Junho de 2015, após a comunicação da Superintendência de Assistência Social (SAS) em janeiro de 2015, que havia suspendido as vagas para o ingresso de 141 crianças escolhidas em processo seletivo no final de 2014 para as creches da USP.

 

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