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A tragédia Temer

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Por Fábio Felix*

Em alguns dias é possível que o Brasil tenha um novo Presidente da República. O atual Vice-Presidente e conhecida raposa da política brasileira deve assumir após o afastamento de Dilma Roussef. Muito tem se falado no que vai representar este novo momento político para o país. Preliminarmente, o sentimento é de profundo desespero só pelo fato do PMDB assumir o comando do governo central. Só de imaginarmos figuras como Eduardo Cunha (Presidente da Câmara), Renan Calheiros (Presidente do Senado), Romero Jucá, Moreira Franco, Sérgio Cabral, Paulo Skaf, Tadeu Filipelli à frente das decisões mais importantes da conjuntura além de serem os responsáveis pelos rumos estratégicos do país.

O primeiro fato que deve ser encarado pelos setores progressistas no próximo período é que o pmdebismo estará turbinado, liderado por um de seus representantes conhecido pelo pragmatismo implacável. Mesmo no livro de memórias de Fernando Henrique Cardoso sobre seus tempos de Presidente da República, é notável a falta de compromisso minimamente programático (com qualquer rumo) deste que será o novo presidente.
No mesmo sentido, é preciso lembrar que teremos uma presidência da república que não passou seu programa de governo pela sondagem das urnas, ou seja, pela voz soberana do povo. É sabido que em eleições gerais no Brasil, quando se fala em privatização, o candidato/a sofre um nível significativo de resistência popular. E Temer já afirma desavergonhado que deve “privatizar tudo o que der”. A revista Veja (entusiasta do novo presidente) já comemora que as primeiras empresas que devem passar pela privatização serão o Correios, a Eletronorte e a Embraer.

Outro ponto preocupante é que o Vice que trabalha nos bastidores como se fosse tomar posse após uma eleição “indireta”, busca construir uma coalizão prioritária com os setores partidários que perderam as eleições: PSDB, DEM, PPS e PSB. Ou seja, a população afirmou através do voto popular que não confiava em certos segmentos e ideias governando e mesmo assim estes governarão o país.

Até aqui não fiz referência às escolhas do PT e seu pacto de governabilidade conservador, o foco escolhido foi a apresentação do PMDB no comando de todos os poderes da república. No entanto, é preciso lembrar que o condomínio governante comandado pelo petismo manteve a mesma lógica convencional da política, desde as alianças até os recuos incansáveis nas bandeiras históricas da esquerda brasileira. Tenho posição contrária ao impeachment, vejo como um golpe, por não ter crime de responsabilidade. Mas se tem uma responsabilidade que não se pode tirar do PT, é o fato de ter turbinado o pmdebismo nos anos lulo-dilmistas.

Às portas do governo ilegítimo de Temer é impressionante a festa do mercado financeiro com o impeachment, comemorando as possíveis medidas que serão aplicadas. As privatizações sem limites, a radicalização do neoliberalismo, a sinalização pela autonomia do Banco Central, um enxugamento visivelmente fictício nos cargos em comissão, além dos acordos com as bancadas do retrocesso, atualmente tão fortes na Câmara Federal.
Na saúde, o documento “a travessia social” (apresentado como programa de governo pelo PMDB), fala na criação de um cartão unificado de saúde, em ampliar as metas de “produtividade” no sistema e parece confundir o público e o privado, em uma demonstração de que não há apreço pelo fortalecimento do que é público. Na educação, o colunista Ilimar Franco afirma que Temer quer discutir a cobrança de mensalidades nas Universidades Públicas além de pretender ampliar o ProUni para o ensino fundamental e médio. Ou seja, o fortalecimento do ensino privado como projeto educacional. Em geral, o mais preocupante é que o próximo governante no país poderá executar um “programa qualquer”, ou melhor, sem qualquer compromisso com a vontade popular.

Neste contexto de reagrupamento das elites nacionais, com movimentos de rua organizados pela direita conservadora, representações fisiológicas empoderadas no parlamento, é preciso de uma esquerda com capacidade para responder nas ruas o pacote político do PMDB e sua coalizão. As ocupações estudantis e as lutas dos sem teto no Brasil dão grande exemplo. A esquerda socialista e democrática brasileira precisa se reinventar com um programa que rompa com as profundas concessões realizadas pelo petismo. O pacto de governabilidade liderado por Lula, que fortaleceu os segmentos mais tradicionais da direita brasileira, está falido. A sede do povo por mudanças deve encontrar uma saída pela esquerda: comum novo campo social que não esconde o que pensa e se posiciona de forma altiva do lado das lutas sociais dos segmentos do andar de baixo, das LGBTs, de negros e negras, dos trabalhadores/as e das mulheres.

Para realizarmos os enfrentamentos que nos esperam só temos um caminho: a reorganização da esquerda com profunda reflexão programática, compromisso de construção de uma nova cultura política democrática e libertária, o fortalecimento de movimentos sociais representativos, que respiram autonomia e combatividade. Uma esquerda que saiu do armário contra a LGBTfobia, no avanço nos direitos das mulheres, que não dialoga com a criminalização da juventude, comprometida contra o fundamentalismo penal, religioso, que não cede às chantagens do latifúndio e das elites econômicas. Esta reorganização não será rápida e fácil, mas seremos muitos/as ocupando as ruas do nosso país, na construção de um novo campo político e com o desafio de fazer diferente.

* Fábio Felix é Professor de Movimentos Sociais da Universidade Católica de Brasília (UCB), Assistente Social do Sistema Socioeducativo, ativista LGBT e de direitos humanos, constrói o Movimento O Barulho dessa Cidade é a nossa voz e é fundador do Partido Socialismo e Liberdade no Distrito Federal (PSOL/DF).

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