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Cientistas e a universidade: um pé dentro e outro fora

Posted on Posted in Lutas, Maíra Tavares Mendes

O biomatemático Richard Levins é conhecido por suas críticas ao reducionismo da ciência e à limitação imposta pelo capitalismo aos avanços na pesquisa e na capacidade humana de resolver problemas. Trazemos a tradução de um trecho do livro “Una pierna adentro, una pierna fuera“, referente à transcrição de sua fala na Universidade Autônoma do México no ano de 2015, meses antes de falecer (você pode ver os vídeos da palestra aqui). No trecho, Levins levanta temas bastante atuais, como os constrangimentos à pesquisa científica impostos pelas corporações, a fragmentação institucional, e sua crítica fundamental ao reducionismo. A multiplicação de doenças (poderíamos levantar hoje a crise na saúde pública referente às epidemias de dengue, zika e chikungunya) como efeitos ambientais passíveis de intervenção, o papel da ciência, e o papel da universidade são alguns dos temas trabalhados. O cientista chama atenção para o fato de que nós, pesquisadores, devemos ter para com a universidade a relação de ter “uma perna dentro e outra fora”, para que nossa prioridade seja responder às demandas da humanidade como prioridade não só acadêmica, mas ético-política.

“Una pierna dentro, una perna fuera”

Tradução: Maíra Tavares Mendes

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Trabalhadores

Há três aspectos principais da nossa existência como cientistas. A primeira área de nossas vidas é que somos trabalhadores; trabalhadores são aqueles que vendem sua capacidade de trabalhar para alguns proprietários da indústria. Neste caso – é a indústria do conhecimento e estamos a trabalhar na indústria do conhecimento. Nisto temos muito em comum com a lã de Lancashire na aurora do capitalismo. Temos problemas de emprego, remuneração, segurança no emprego, permanência, de condições de trabalho, o assédio por parte dos proprietários. E os proprietários da ciência, como os proprietários de qualquer indústria dedicada à produção de mercadorias, decidem as coisas mais importantes: quem tem permissão para fazer ciência, que meios são respeitáveis, quais são as perguntas que devem ser feitas, quais são as teorias admitidas na discussão, e, talvez o mais importante, o que é que excluímos.

Primeiro, a quem se permite fazer ciência. Em tempos distintos era limitada a homens, a brancos, a pessoas da classe alta; mas sempre houve uma seleção baseada em quem são os que entram na ciência. Segundo, uma vez que entram na ciência, o que vão fazer ali, e esse é o projeto[1] dos proprietários. Essa agenda tem sido diferente em diferentes períodos históricos. O sacerdote da Mesopotâmia ou de Yucatán tinham um projeto diferente estudando astronomia; burocratas da China Antiga tinham em seu projeto serem bons administradores; cavaleiros de meios independentes na Inglaterra tinham como projeto entreter-se e reunir-se com amigos em seus clubes de Londres, compartilhar algumas observações e beber o que eu acho que foi cerveja portenha – stout porter. Eles se satisfaziam respondendo as perguntas que eles mesmos colocaram no projeto. Na Idade Média, cada pequeno reino tinha, pelo menos, seu poeta, seu palhaço e seu astrônomo, os quais competiam para se destacar neste tipo de consumo de luxo.

Então, podemos dizer que para os proprietários a ciência foi consumo de luxo; para os partícipes, para os cientistas, foi diferente. Algumas das realizações da ciência islâmica foram realizadas dentro dessas condições muito restritas.

Hoje em dia o projeto da ciência é outro. Os trabalhadores da pesquisa em doenças infecciosas são subsidiados por corporações farmacêuticas ou universidades que são suas sócias. Por isso, eles financiam estudantes com bolsas e ensinam como investigar com as suas finalidades para assegurar que obtenham emprego. Eles os formam em seminários, enfocam em abordagens moleculares para o tratamento, o ambiente intelectual gira em torno de varinhas mágicas. A acumulação de dívida com estudos empurra os alunos a concentrar-se com apuros em cursos relacionados com sua tese, que estão relacionados com os subsídios e estratégias das corporações. E para a universidade, em vez de dinheiro por si só, pode-se dizer que a via é o prestígio, o que significa resultados respeitados por seus amigos, que outorgam prêmios entre si e que formam parte de uma nomenklatura, como diziam os soviéticos, de pessoas respeitáveis. Pessoas consultadas a nível nacional, que enviam para congressos internacionais, que são nomeados para fazer subvenções, para aprovar as teses de estudantes de seus amigos, para passar por agências governamentais, juntas de chefes de empresas, agências do Pentágono, etc. E é como uma sucessão quando eles se conhecem, se encontram no campo de golfe e, claro, respeitam os resultados do outro e sabem quais rechaçar. Isso quer dizer que o enfoque mecanicista, que vem da filosofia dominante, concorda com os interesses econômicos dos atuais proprietários da ciência, para produzir o domínio do que é permitido e o domínio do que não é respeitável no campo da ciência. As agências são responsáveis por avaliar o potencial de danos ambientais os avaliam um por um, e com cem mil novas moléculas em nosso ambiente, é uma tarefa impossível. Faz falta uma prioridade para a química, para o estudo da química em misturas complexas, mas com 105 diferentes produtos químicos, temos 1010 pares de interações, e seguem se acumulando, de modo que para agências de proteção ambiental, por exemplo, não há possibilidade de examinar nem todas as moléculas, uma por uma, nem, claro, o conjunto delas.

A abordagem complexa que defendemos é diminuída nas sociedades modernas por uma série de fatores político-econômicos, institucionais e filosóficos da própria ciência. Abaixo detalhamos algumas deles.

 

O conhecimento como mercadoria

No capitalismo o conhecimento é uma mercadoria. O problema é que a mercadoria é uma experiência tão comum para nós que nós não a questionamos e pensamos que é só o que existe. Mas a conversão do conhecimento em mercadoria não é apenas uma questão ética, como também determina que tipo de pesquisa pode ser feito. Podemos dizer de uma corporação, não importa se os seus produtos são produtos químicos, automóveis, poesias ou livros – que, na verdade seu único produto é o lucro. Esse é o critério; e para produzir lucro, para maximizar o lucro, não importa se o produto é útil, neutro ou danoso. Se ele é danoso, então eles têm de defender o produto, para isso que têm as suas baterias de advogados e fazem o cálculo: “É o conveniente o investimento contratando advogados ou os legisladores para defender o produto, ou é melhor desistir e inventar outra coisa?”. Então podemos pensar que cada produto, cada mercadoria, tem uma meia-vida, como um isótopo, que é o tempo entre o momento em que é lançada no ambiente para a venda e o tempo que têm para retirá-la do mercado porque está produzindo anormalidades no crescimento das crianças.

Cada empresa faz cálculos deste tipo, o diretor de pesquisa em uma companhia petrolífera me explicou o processo. Ele, como diretor de pesquisa de química agrícola, teve que apresentar ao conselho de diretores seu argumento de que investir em pesquisa sobre químicos agrícolas é pelo menos tão rentável quanto a aumentar a procura de petróleo, ou melhorar a produção ou refino de produtos, ou fazer mais esforço na venda ou contratar um congressista, ou cobrir os custos de uma campanha política. Do ponto de vista do conselho de diretores, cada investimento é equivalente; a única coisa que diferencia entre investimentos é o rendimento do lucro para eles.

Vamos supor que ganhe a discussão, que eles digam sim: “Vá em frente com o desenvolvimento de produtos químicos para a agricultura”. Mas quais produtos químicos? Bem, eles têm de ser produtos químicos que sirvam para as culturas principais. Assim, o grande investimento vai para a soja, trigo, milho, canola, etc., não será para os morangos. Logo, o padrão de comportamento na pesquisa da  não pesquisa é ao mesmo tempo um problema de ética, economia política e conflito de interesses.

Nem todo conhecimento é igualmente rentável. Por exemplo, no controle de pragas na agricultura, a estratégia dominante é uma varinha mágica: agrotóxico. Por que não tem outra vertente? Por que não instam aos agricultores a plantar feijão com milho? Bem, porque se é um produto químico, você pode vender ao agricultor, que no ano seguinte tem que comprá-lo novamente; se é um genótipo inventado pela Monsanto, pode ser vendido aos agricultores e revendido, e revendido, isto é um campo de investimento. Por outro lado, se a pesquisa agrícola diz que é uma boa idéia semear cenouras com pimentões porque espantam os vermes que sugam as raízes da cenoura, bem, pode ser uma boa idéia, mas não tão rentável. Você pode publicar uma vez, não se pode revender a cada ano para o agricultor e não se pode colocar um preço tão alto quanto os produtos químicos. Portanto, não é surpreendente que a agricultura orgânica não seja produto das corporações químicas, mas sim de centros de pesquisa nacionais com uma orientação mais voltada às necessidades dos agricultores.

Do mesmo modo, tem sido demonstrado que os progressos na produção de milho teriam sido talvez maiores, pelo menos igualmente rápidos, selecionando as linhagens que o povo já cultivava ao invés de hibridar, mas a hibridação significa que o agricultor tem de comprar a semente, porque quando replantado o milho híbrido produz algo geneticamente diferente. Esse também é o raciocínio da Monsanto com a produção de organismos geneticamente modificados que são sua propriedade. Os agricultores devem obter uma licença para plantar, porque senão são levados a julgamento. Se o pólen dessas plantas atinge o campo de outro agricultor que não tem essa semente, a Monsanto pode identificar os seus próprios genes e processar o agricultor. Esse é o raciocínio para a investigação agrícola; muito diferente do raciocínio que pergunta: como podemos garantir que as plantas de diferente origem possam ser cultivadas origem juntas; qual é o padrão de produção em agrícola que pode evitar a fragmentação de uma população frente a todas as incertezas do clima, pragas e da economia. Portanto, um ponto que orienta a pesquisa é a capacidade de transformar conhecimento em mercadoria e, portanto, existem dois caminhos que pode tomar a pesquisa agrícola no mundo de hoje: o caminho capitalista, que tem como meta produzir mercadorias para vender ao camponês, e o caminho da Agroecologia, promovida por movimentos como a Via Campesina, pelo povo cubano e ainda por grupos de agricultura orgânica nos países capitalistas. As pesquisas que eles realizam podem realmente ser mais produtivas, podem proteger a saúde do agricultor, manter os solos, manter a segurança da água potável, etc. Há toda uma série de benefícios quando se adota a agroecologia. Não se deve ver o progresso como uma marcha para a modernização, seguindo um caminho já traçado; o progresso é um processo que se ramifica de acordo com o propósito daqueles que o perseguem.

Eu tive o privilégio de entrar em debates sobre o caminho ecológico contra o caminho químico para controlar as pragas, que tiveram lugar em dois tipos diferentes de sociedade: Estados Unidos e Cuba. O que é interessante é a diferença entre estes debates.

Em ambos os lugares o debate pode ser feroz e as pessoas produzem argumentos científicos, mas nos EUA o debate científico é um disfarce para o esforço de venda e é dirigido por pessoas que representam empresas, pessoas que têm a obrigação de convencer, não de aprender. Uma vez eu vi um vendedor de uma corporação química engolir um copo de DDT para provar que não há perigo; se a corporação enviou outro ou vendedor no ano seguinte, talvez tenha sido outro vendedor, até os vendedores também têm uma vida média.

Então as agências que apoiam pesticidas o fazem por seu próprio interesse econômico e os vendedores vêm com argumentos, trazem seus advogados, e seu objetivo é convencer o agricultor a comprar o seu produto. O debate pode ser igualmente feroz em Cuba, mas ninguém tinha o objetivo de convencer o agricultor a utilizar estes produtos, mas tinham diferenças honestas de opinião. Lá o debate foi entre aqueles que se dedicam a tentar fazer algo de novo para proteger a vida do consumidor, a vida do agricultor, a vida do solo; e aqueles fascinado com a ideia de progresso, de que o progresso vai em linha reta de menos moderno a mais moderno e a tarefa do atrasado é alcançar a mesma tecnologia dos demais. Assim, essa idéia de um progresso linear, que forma parte da filosofia liberal, encorajou alguns companheiros, pessoas honestas, com igual compromisso com o país, mas equivocados por razões que vou tentar mostrar depois. Então, quando há um conflito de interesses disfarçado de ciência, não se pode vencer; quando se desmente o que diz a corporação ela vem com outro argumento. Vimos que a luta contra o tabaco durou várias gerações e encheram os cemitérios de pessoas mortas pela ciência a serviço da busca de lucro. Por outro lado, quando há diferenças de opinião honestas, pode-se chegar a conclusões. As pessoas que defendiam um lado fizeram seus experimentos e aí foi que, finalmente, na década de oitenta, a vertente da Agroecologia predominou sobre aqueles fascinados pela tecnologia moderna, por aquilo que concebiam como a tecnologia moderna.

Sabemos que a ciência sempre comete erros, mas alguns são erros idiossincráticos: que se esqueça de desligar a  máquina, que por acidente ocorra mistura de duas espécies, que se derramem concentrações impróprias para ratos nas gaiolas; estes são erros idiossincráticos e podemos enfrentá-los mais ou menos com o que chamamos de método científico. Isso significa que você sempre tem que lavar as placas de Petri antes da inoculação, que quando há um experimento faz falta um controle, que como o experimentador pode influenciar o resultado do experimento é melhor não saber quando se recebe o placebo e quando se recebe a pílula. Sabemos que há acidentes e tratamos de enfrentá-los com a estatística e com regras para o trabalho científico, que devem ser cumpridos antes da publicação.

Trata-se também de reforçar os velhos dilemas da ciência: uma idéia deve ser julgada pelo seu mérito, sem considerar quem é o autor, todos têm o direito de acesso aos dados, o direito de repetir a experimento, deve haver democracia de debate onde o que importa é a evidência, etc. Quando tudo aquilo era possível se vivia uma era de ouro na ciência, uma etapa do liberalismo capitalista quando na realidade foi possível para todos repetirem uma experiência em seu próprio pátio.

Agora, se eu quiser fazer um estudo com um telescópio de rádio tenho que ser um astrônomo certificado e estar na fila de espera por vários anos, então me permitirão que cinco minutos com o telescópio. A ideia de que todos têm o direito de repetir um experimento está descartada. Ademais, muitos dos dados que queremos repetir não são dados públicos, pertencem ao Pentágono ou alguma corporação sob as leis de propriedade intelectual. Mesmo quando se trata de  variedades vegetais desenvolvidas ao longo dos séculos por camponeses, uma corporação como a Monsanto quer ter patentes sobre elas para modificar-lhes um gene ou proteína. Então, os velhos dilemas da ciência democrática liberal estão saindo de moda, é cada vez mais difícil insistir em uma democracia para a ciência, que cada vez se converte em mercadoria.

Os argumentos com que debatiam sobre tabaco, DDT, sobre todos os genótipos modificados pela Monsanto, é que estas são mercadorias mais que conhecimentos, são mercadorias sob a forma de conhecimento. E o conhecimento pode ser acertado ou não, mas nós sabemos que um medicamento aprovado pela Agência Federal de Drogas tem uma vida média durante a qual você pode vender até aposentar-se, dizendo: “Bem, perdão, desculpe-me, mas sim está matando crianças. Protege o coração mas acaba com seu fígado”. Como eles têm diferentes departamentos para pesquisar fígado e coração, podem ter produtos para um propósito limitado. Eles louvam este produto, mas se você tem alguma coisa, oh, surpresa! Para ver se algo provoca danos, o que eles fazem são testes com ratos, observam se produzem câncer em 90 dias.

 

Fragmentação institucional

Dissemos que o primeiro fator é o conhecimento como uma mercadoria; o segundo é a fragmentação institucional do conhecimento, de modo que os fitopatólogos não falam com os médicos, não lêem as mesmas revistas, não vão às mesmas reuniões. Somente durante os últimos 20 anos conseguimos por meio da agência Promed, ter informes de doenças de humanos, animais domésticos e selvagens e de plantas. Agora sim é possível encontrar informações de todos os organismos visíveis. Outro tipo de fragmentação é uma fragmentação de doenças, em que podemos ter um departamento de tuberculose, e outro departamento especializado em AIDS e talvez não se vêem porque cada departamento tem os seus seminários e suas urgências. É importante conhecer em profundidade as doenças específicas, mas também é preciso dar dois ou três passos atrás para ver o todo.

Quais são as doenças que afetam países em desenvolvimento tropicais? Neste caso, o problema a certa distância é como evolui a relação entre nós e o mundo microbiano ou o mundo de seus vetores. Para fazer isso precisamos saber quem são os vetores. Sabemos que os mosquitos podem transmitir dengue, febre amarela e malária; sabemos que existem carrapatos que transmitem a doença de Lyme. Então vale a pena ter em conta todas as ordens de insetos e perguntar: Quais são vetores de doenças humanas e quais não são? E por quê? Bem, acontece que a grande maioria dos vetores de doenças humanas pertencem à ordem dos dípteros, dentro da qual os mosquitos são um grupo importante. No campo vegetal, os vetores de doenças são os hemípteros (um grupo muito diferente dos dípteros), que transmitem muitas pragas, como pulgões (afídeos), psilídeos e minadores. O que estes dois grupos de insetos têm em comum não é nenhuma relação evoolutiva, são suas bocas. Quando se alimentam chupam líquido da seiva da planta ou o sangue da pessoa, mas quando chupam o líquido deixam um vácuo, e este vazio não lhes permite continuar sugando a menos que reponham o líquido no tecido de seu hospedeiro. A substância com que repõem vem de sua glândula salivar e está cheia de parasitas. Portanto, a transmissão da doença parte da necessidade do inseto repor o líquido para seguir sugando, assim que neste caso podemos supor que também existem grupos de insetos que não transmitem qualquer doença para nós, como as borboletas. A forma de alimentação da borboleta não transmite nenhum líquido a nenhum hospedeiro, podem se nutrir de néctar, de pólen e seguir voando.

Podemos perguntar sobre a semelhança entre dois grupos de animais: os seres humanos e o gado, por exemplo. Podemos falar sobre a distância taxonômica entre nós e outros grupos de animais, o que tem a ver com o número de doenças que nós compartilhamos. Temos mais doenças em comum com os primatas? Com outros mamíferos? Quantas doenças compartilhamos com os répteis? Por que compartilhamos tantas doenças com as aves? Então estaremos nos aproximando: o que as aves têm em comum com mamíferos é a temperatura corporal interna; e essa temperatura interna é necessária para o ambiente de muitos parasitas. Mas tem de ser uma temperatura moderada, que não pode ser muito alta, por isso é que a febre é uma das defesas de um animal contra a infecção. Quando fazemos perguntas deste tipo podem dirigir a nossa atenção sobre as possibilidades do surgimento de novas doenças. Podemos nos perguntar: Como poderíamos intervir na evolução de um parasita para que se torne menos virulento? Uma possibilidade é tratar diariamente os pacientes com a ferramenta médica que tivermos para curá-los, mas se os sintomas são suaves e não são detectados, como acontece com muitas doenças, então daremos um tratamento paliativo sem pretender terminar acabar com o parasita. Assim, do ponto de vista da evolução, os parasitas que produzem sintomas mais virulentos têm que enfrentar todos os ramos da medicina; mas seus compadres, que não produzem muitos sintomas, podem ser deixados em paz e até serem recrutados na comunidade de comensais que habitam nossos intestinos. Logo, em tais casos, podemos mobilizar as forças da evolução em nosso favor.

Mais perguntas úteis que podemos fazer: Quais são as novas doenças que podem surgir nas megacidades? Porque há um limite, preciso de uma população suficiente para manter uma doença infecciosa. Preciso de cerca de 250 mil habitantes para manter o sarampo, com a malária a mesma coisa. Antes da agricultura, uma aldeia era muito pequena, de modo que a malária provavelmente se comportava naquela época como hoje a encefalite: se espalhava na população humana ocasionalmente a partir de outros organismos. O importante é fazer perguntas sobre o todo. Qual é o efeito da desnutrição sobre o fígado? Como se comporta o pâncreas sob o capitalismo? Como é a adrenalina entre trabalhadores agrícolas? Qual é a melhor maneira de lidar com diabetes? Podemos fazê-lo clinicamente e com insulina, mas às vezes é uma questão da natureza do trabalho do paciente, de sua dieta. Se você tem meia hora para  o almoço e não tem como chegar no local com alimento seguro, então irá para a máquina de vendas e o que comprar vai para seu pâncreas. Assim é que os órgãos do corpo humano são simultaneamente órgãos biológicos e sociais.

 

Reducionismo

O terceiro elemento em oposição à abordagem complexa é a filosofia mecanicista e reducionista, a partir de Newton. Esta filosofia nasce com a revolução capitalista e parece tão natural porque corresponde à experiência diária dos empresários, em que uma empresa encontra outra no mercado, tropeçam brevemente para trocar dinheiro e produtos, e cada um sai sem ser transformada a raiz deste encontro. Portanto, a ideia de que o mundo é composto por indivíduos que se desenvolvem no vazio, encontrando-se ocasionalmente, forma uma visão natural também para cientistas da era capitalista. No feudalismo, na Idade Média, havia outra ideia do mundo. Tinha-se o conceito da grande cadeia do ser, onde cada coisa tinha seu lugar: minerais ao fundo, plantas, animais, seres humanos, anjos, anjos superiores e Deus. Essa foi uma visão holística mas estática. Cada um em seu lugar, um lugar para cada coisa. E há que se obedecer, há regras de acordo com a escala em que se está. A chegada do capitalismo retirou essa hierarquia estática e essa integração com um mundo de átomos de ser: átomos sociais, átomos químicos, átomos de espécies e o estudo é o estudo de todos os tipos de átomo.

Quero diferenciar a redução do reducionismo. A redução é o reconhecimento de que é bom saber de quê algo é composto, e isso é uma tática de investigação. Reducionismo é a pretensão de que depois de feito isso, já compreendemos tudo a princípio. Quarenta anos atrás diziam que já tínhamos acabado com doenças infecciosas a princípio, e fecharam o departamento de doenças infecciosas de minha escola para se concentrar em doenças do coração e câncer, com a ideia de que já pertenciam ao passado. Tínhamos antibióticos, tínhamos vacinas e os micróbios só tinham suas velhas armas de mutação e recombinação, de modo que tínhamos ganhado, ou pelo menos estávamos prestes a vencer. Não se deram conta de toda uma série de fatores de complexidade. Em primeiro lugar, a evolução. Cada vez que atacamos uma doença com um medicamento, isso impõe pressão de seleção natural para produzir novas variedades do patógeno. Então, quando nós criamos novas condições, os patógenos evoluem. Os grandes campos de produção de carne e frango são um ambiente com exposição a doenças, logo deve-se usar muitos antibióticos para produzir carne. Isso significa que temos milhares de animais em um ambiente com antibióticos e milhares de micróbios aprendendo a lidar com eles. A morte da época dos antibióticos vem em parte da industrialização da produção de carne, tanto de aves quanto de gado.

A ciência moderna não levanta os problemas mais importantes pelos limites econômicos, mas também pelos intelectuais, e o limite intelectual mais importante é o reducionismo. No longo prazo, levantar o pequeno problema ajuda quando queremos projetar uma pílula, mas não explica e não coloca como isso vai incidir sobre a vida humana em geral. Embora o reducionismo seja a filosofia dominante em nossa ciência, sempre houve críticos deste reducionismo. Em tempos dos românticos, como Goethe, também em filósofos como Hegel, Marx e Engels, Whitehead e outros, instaram a buscar uma visão mais ampla, às vezes relocalizando o reducionismo, que simplifica o mundo e faz recomendações… e as recomendações não funcionam. A abordagem reducionista divide o mundo em átomos, incluindo a ciência, na qual se separa e dicotomiza. Fala-nos de ciência teórica e prática; e ainda mais, pretende decidir que tipo de ciência cabe a cada um fazer. Quando estive no Vietnã durante a guerra dei uma palestra para a da Academia Vietnamita de Ciência durante um período em que a universidade estava espalhada na selva. Havia uma distância de um quilômetro entre salas de aula, e me convidaram para falar sobre evolução e biomatemática. Então, perguntei ao ministro: “Mas como se atreve a colocar problemas de Biomatemática, quando o país é queimado, bombardeado e invadido?” E ele me disse: “Olha, nós vietnamitas fomos invadidos por três mil anos, lutamos contra a China, contra os franceses, os japoneses, contra os franceses de novo e desta vez contra os norteamericanos. Como podemos adiar o nosso futuro até que terminem os séculos de guerra? Quando queremos desenvolver a ciência não podemos construir laboratórios, porque eles podem bombardear, mas podemos  ir acumulando a inteligência e os conhecimentos, e com isso, depois da guerra, já podemos construir laboratórios”.

Mas os vietnamitas sempre tiveram uma visão larguíssima da história e de sua própria posição dentro dela. Rejeitaram a abordagem europeia, que dizia que um país em desenvolvimento deve atender a ciência aplicada e deixar a teoria avançada e sofisticada para os sábios de Londres e Boston. Os vietnamitas rechaçaram esta orientação, dizendo: “Nós rejeitamos a diferenciação do conhecimento entre a ciência teórica e a ciência aplicada. Pelo contrário, temos de aprender a realizar um trabalho prático a partir de uma visão teórica a longo prazo e realizar o trabalho teórico com uma visão para a sua aplicação para as necessidades da humanidade. Essa é uma das dicotomias mais comuns na ciência e devemos rejeitar”. Rechacemos a separação entre o trabalho teórico e o trabalha prático, entre explicações fisiológicas e explicações psicológicas, entre causas ambientais e causas genéticas, entre fenômenos aleatórios e fenômenos deterministas. Cada vez que dividem o mundo em pedaços para colocá-los sob diferentes disciplinas, estamos cometendo não apenas erros intelectuais e científicos, mas também prejudicando as possibilidades de enfrentar os grandes problemas que a humanidade enfrenta hoje.

Recapitulando, o cientista como trabalhador não tem controle sobre o projeto do seu campo, nem tem controle sobre como são distribuídos os produtos de seu esforço, não controla os preços, às vezes nem sabe o propósito de sua pesquisa. O chefe de pesquisa pode dizer: “Ei, encontre uma maneira de separar a molécula 1 da molécula 2”, e o cientista não tem que saber para quê, o que vão fazer com essas moléculas. Bem, então o cientista é um trabalhador, mas também diferente de outros trabalhadores, e a principal diferença é que ele tem interesse no produto de seus esforços; isso não é verdade com todos os trabalhadores da indústria. Uma pessoa que trabalha todos os dias em uma fábrica de armas não está lá pelo prazer de imaginar que está matando pessoas de forma mais fácil ou mais barata, mas sim que aquilo é o seu trabalho. Quando há uma ameaça de fechar uma fábrica de armas, o congressista corre para Washington para dizer não, que emprega cinco mil pessoas que votam para o seu partido e nunca coloca em questão se é algo útil para a humanidade produzir essas armas. Então, pelo fato de que como cientistas temos interesse no produto do nosso trabalho, surgiram esforços para se organizar. Ao contrário de um sindicato de outra indústria, como automóveis, na ciência a Federação de Cientistas Americanos, The World federation of Scientifc Workers, The New World Agricultural Group, são toda uma série de grupos onde os cientistas querem ter alguma influência o produto do seu trabalho. Eles começaram no MIT com a greve dos pesqusiadores contra o uso de seus conhecimentos para a guerra, mas depois de desafiar o uso do produto, também perguntaram como está a organizada e quem subsidia pesquisas, como são selecionados os partícipes; gradualmente chegaram a uma crítica cada vez mais ampla da ciência. Então, como os trabalhadores, os cientistas podem também entrar em conflito com os proprietários do conhecimento. Isso ocorre em relação à agricultura: nos EUA, algumas universidades de agricultura que ensinavam o uso de produtos químicos, fertilizantes, pesticidas, foram forçados pelos estudantes a inserir no currículo pelo menos um curso de controle pragas biológico, ou métodos para regenerar a terra que foi degradada pela tecnologia violenta. Isto muda portanto o nosso conceito de história da tecnologia, de que é o progresso; em vez de ver uma progressão linear, o que vemos é um processo de ramificação com sentidos diferentes que pode tomar a investigação. Por exemplo, o modernismo capitalista sugere que a evolução da agricultura deve ser de alta intensidade de trabalho para alta intensidade de capital; da heterogeneidade da agricultura camponesa à homogeneidade do lucro de escala; de pequenas empresas a grandes empresas, escala industrial; do conhecimento tradicional ao conhecimento científico; da pesquisa da vida no nível da experiência cotidiana à pesquisa das coisas menores, com a ideia de que quanto menor o objeto de estudo, mais moderno; de estarmos sujeitos à natureza ao sentido de domínio sobre a natureza. Esse é o projeto de modernização por trás da Revolução Verde e outros programas. Os governos dos países em desenvolvimento, fascinados pela possibilidade de subsídios e ajuda dos países ricos estão dispostos a aceitar a ideia de mudar a tecnologia; de substituir o agricultor pela corporação agrícola; de transitar do conhecimento local e troca de variedades produzidas em suas próprias fazendas para a indústria de sementes, onde as sementes são produzidas em outros climas.

[1]     Do inglês “agenda”.

 

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