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O dia em que saí do armário

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Por Fábio Felix*

 

Nesta semana resolvi escrever sobre uma história pessoal que penso estar bastante vinculada com a crise política que enfrentamos, pois é fato que estamos vivenciando um acirramento de posições civilizatórias nesse exato momento. Vou falar sobre minha trajetória de “outing”, aquilo que sempre me mobilizou do ponto de vista afetivo e sexual, e como a Universidade teve um papel fundamental nessa trajetória. Escrevo esse texto pra defender que a Universidade, como qualquer programa construído hoje para a educação brasileira em todos os seus níveis, precisa estar conectada com as agendas de desconstrução do patriarcado e da heteronormatividade. Mas há uma outra motivação para falar desse assunto: sofri uma agressão verbal homofóbica em uma assembleia de que participei na semana passada. Esse episódio me fez reviver sentimentos da adolescência e recordar o tamanho da violência que somos acostumados a conviver e normalizar. Contar minha história sem medo e com orgulho é uma das formas que encontro de revidar.

Enfim, o meu primeiro ensaio de saída do armário foi em 2002 aos 16 anos. Depois de muito conflito interno, por ter tido uma criação muito pautada pelos valores de uma igreja evangélica de Brasília e ao mesmo tempo ter sofrido tanto por ser afeminado, tive a coragem de contar para meu pai e mãe um pouco do que sentia. E o fato, bem claro para mim, é que sentia desejo sexual e paixões típicas da adolescência por homens, pelos meninos da minha sala e etc. Antes disso, em 2001, fui induzido pelo o que muitas pessoas chamavam de “meu jeito”, a ler um livro indicado por uma liderança da igreja. O título era “De Dentro pra fora – Sua vida pode mudar pra valer se estiver disposto a começar” e o autor um sujeito chamado Larry Crabb. Eu tinha 15 anos. Ler esse livro foi como uma espécie de espancamento na minha vida. Sofria dia e noite, pois  cada parágrafo me fazia sentir que não merecia sequer estar vivo. Sentia que minha orientação sexual piorava ainda mais minha condição: eu era uma espécie de escória, uma pessoa doente e condenada a viver infeliz para o resto da vida.

No entanto, passados cerca de oito meses da leitura do livro, comecei a me recompor com a ajuda de amigas (sempre mulheres!) da Escola e também da Igreja. Elas me ajudavam mesmo não sabendo exatamente aquilo que me afligia por dentro. E, como disse, no início de 2002 tive a coragem de contar para meu pai e minha mãe sobre minha orientação sexual, meu sofrimento, minhas angústias – e talvez esse tenha sido o momentos mais importante para minha aceitação. Encontrei no meu núcleo familiar um suporte incrível. Se esse texto fosse uma carta de gratidão seria, sem dúvida, direcionado aos dois.

Mesmo com o apoio irrestrito dos meus pais, o processo de saída do armário não foi nada fácil. Persistia um conflito interno que me consumia como se eu fosse o pior dos pecadores. Não posso dizer que vivi no final da minha adolescência um período saudável com minha sexualidade. Porque até pequenos namoros significavam alegria e sofrimento posterior. Havia uma culpa que parecia que não seria solucionada nunca.

Então, em junho de 2004, ingressei na Universidade de Brasília para cursar Serviço Social. E aí percebi que o conhecimento tem um peso gigantesco na existência humana. Além de todos os sustos da entrada numa Universidade do porte da UnB, fiquei em choque quando vi o primeiro casal gay passeando tranquilamente de mãos dadas pelo campus. Aquele nível de aceitação me gerava um misto de constrangimento e vontade de radicalizar na mudança de como me reconhecia.

É possível afirmar que o curso de Serviço Social é altamente progressista em comparação com outras áreas da Universidade: tive professoras incríveis desde o primeiro semestre que falavam de diversidade e da questão LGBT de forma livre. Essas professoras (sempre mulheres!) conseguiam criar uma outra atmosfera para esta temática. Tenho certeza que isso teve o mesmo rebatimento em tantos LGBTs que estudaram na minha geração…

Não vou fazer citações específicas a professores e outros agentes importantes na minha trajetória, pois a ideia é fazer uma discussão mais geral, política mesmo, do papel da Universidade na construção de autonomia nos indivíduos e no enfrentamento das opressões. Nesse sentido, o que quero é afirmar que a Universidade me deu a chance de participar em diversos momentos de diferentes de espaços que mobilizavam a temática LGBTS. Lembro com orgulho que ali fundamos o primeiro grupo LGBT da UnB, o Klaus. Depois, no Centro Acadêmico de Serviço Social e no Diretório Central dos Estudantes, criamos muitos espaços que pressionavam a Universidade de Brasília a pensar a diversidade e a questão de gênero como temas estruturais.

Essa história, mesmo que tão resumida, me leva a algumas conclusões importantes sobre o papel da educação brasileira na discussão de temáticas que, atualmente, são alvo de ataques dos segmentos mais conservadores da sociedade. A certeza de que o primeiro desafio na construção de um programa para a Universidade é o combate às propostas que tentam impedir que professores/as discutam as questões libertárias nas Escolas. A argumentação das forças reacionárias de que há um suposto “assédio ideológico” nas escolas é uma estratégia que objetiva um enorme retrocesso nas narrativas de liberdade e tolerância que conquistamos até aqui.

A segunda lição trata a necessidade das Universidades brasileiras terem uma programa de atendimento, acolhimento e ações para a comunidade LGBT que ingressa em seus cursos. Algo inscrito na estrutura organizacional da Universidade, com legitimidade política e que possa, fundamentalmente, cuidar de tantos LGBTs que como eu entraram na Universidade perdidos ou em sofrimentos profundo por sua condição.

Uma terceira conclusão é de que a Universidade que respeita a diversidade precisa combater fortemente à LGBTfobia e seus desdobramentos violentos. Esse enfrentamento começa no combate aos trotes de diversos cursos que envolvem “brincadeiras” que reforçam estigmas e humilham de forma cruel centenas de calouros LGBTs.

Como acredito que o ativismo coletivo é algo transformador, o trabalho dos movimentos sociais é fundamental para que estas conquistas aconteçam. Os movimentos de juventude devem apostar sempre em setoriais LGBTs e outros espaços de empoderamento desta temática.

Acho importante ressalvar que não tratei da complexa situação das transexuais, do abismo que ainda persiste entre estas e as Universidades brasileiras, e encaro este texto como uma contribuição – a partir da minha vivência de homem, gay e cisgênero – para a construção de um programa maior da diversidade nos espaço universitário. Sem dúvida as mulheres e homens trans ou não binários terão melhores condições de trazer reflexões encarnando aquilo que vivenciam.

O desafio de construção de um programa para as LGBTs nas Universidades é ainda maior com o retorno agressivo de ideologias obscurantistas promovidas pelos setores políticos ligados ao fundamentalismo religioso no Brasil. Muitos desses promotores do preconceito se dizem incomodados com o simples uso das palavras gênero, diversidade e com a própria sigla do movimento. Além da luta para o avanço dessas pautas no próximo período, será preciso resistir as tentativas conservadores de retroceder naquilo que com muitas lágrimas, suor, dor e morte conquistamos até aqui. No meu processo de saída do armário apreendi que nessas lutas – individuais e coletivas – o espaço da Universidade, com sua vocação para o conhecimento libertador, é fundamental.

* Fábio Felix é Professor de Movimentos Sociais da Universidade Católica de Brasília (UCB), Assistente Social do Sistema Socioeducativo, ativista LGBT e de direitos humanos, constrói o Movimento O Barulho dessa Cidade é a nossa voz e é fundador do Partido Socialismo e Liberdade no Distrito Federal (PSOL/DF).

2 thoughts on “O dia em que saí do armário

  1. Parabéns professor pela sua conquista. Pena que ao final da sua carta vc não informou como vc se sente hoje, mas acredito que se sinta realizado como pessoa.contudo sou evangélica, mas jamais eu iria descriminar um LGBT pelo contrario, eu amo pessoas como vc, pois são mais humanos do que se possa imaginar, não são covardes e não fogem da luta, sabem muito bem o que querem. Sinto-mi honrada em ter sido sua aluna. um abraço.

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