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A extensão pode deixar a universidade com mais cara de Brasil

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Por Gregório Grisa*

O papel subalterno dado a extensão universitária, diante de seus “colegas” ensino e pesquisa, reflete a elitizada formação das universidades brasileiras. A função social da universidade pública é oferecer respostas à problemas sociais concretos do seu entorno, o braço da extensão é o que melhor serve a esse propósito.

No entanto, dentro do que é valorizado na carreira acadêmica hoje, os projetos de extensão são coadjuvantes, pouco valem em progressões profissionais, em concursos públicos, há pouco financiamento, há pouco reconhecimento e status social para quem se dedica a promoção da extensão.

Tendo a publicação em periódicos especializados como o critério nuclear de classificação da carreira docente, estamos valorizando em especial que perfil de profissional? Que tipo de atividade laboral cotidiana?

Estamos valorizando aqueles que ficam maior parte do seu tempo de trabalho sozinhos em frente ao seu computador, fazendo revisões bibliográficas, tabulando dados e, principalmente, adaptando seu trabalho as heterogenias normas das diversas revistas científicas. Estamos valorizando os que não querem mais dar aulas na graduação, os que não querem ocupar espaços de gestão ou burocráticos e usam seu tempo construindo estratégias, individuais ou em pequenos grupos, para publicar mais, pois esse é “caminho para o sucesso”.

Os artigos não devem ser valorizados? Mas eles são fruto de pesquisa empírica também? Claro que devem ser valorizados, a questão é porque chegamos a um patamar taxionômico em que o reconhecimento advêm basicamente de uma fonte, a publicação em periódicos específicos?

O tráfico de influência, o conflito de interesses e a pequena politica, tristes características da vida pública do país, também são percebidas no meio acadêmico. O lobby dos periódicos conformam um mercado lucrativo (status que por consequência traz dividendos, financiamento, contratos, patrocínios, etc…).

Projetos de extensão, vinculados a pesquisa, deveriam ser prioridade no serviço público, nos concursos e nos critérios de progressão na carreira.
Aqueles que se desafiam a propor melhorias reais para a vida das pessoas, que colocam a cara a tapa na sociedade civil, que visam popularizar o conhecimento e enfrentam interesses para qualificar políticas públicas deveriam ser extremamente valorizados, nem sempre o são. A meu ver esse seria um dever ético do meio acadêmico, da universidade.

Sei que há lindas experiências extensionistas no Brasil e que muitas instituições avançaram significativamente, mas ainda é pouco. As Ações afirmativas dão esperanças nesse sentido, até 2022 esperamos que o novo público que chega à universidade possa oxigenar a academia e empoderar a extensão.

Enquanto pensarmos a pesquisa e a qualidade científica apenas pelo prisma da publicação (indexada ou não) estaremos reproduzindo relações de poder desiguais transplantadas da sociedade para o universo acadêmico. As áreas do conhecimento que têm maior proximidade com o capital (seja econômico ou de status) sempre deterão os espaços de prestígio, pois o sistema está e foi pensado com esse desiquilíbrio, desprezando critérios de equidade.

É preciso ter coragem política para romper com a dinâmica avaliativa (aspecto técnico) e de reconhecimento (aspecto cultural/político), isso passa por pequenas mudanças normativas nas universidades e grandes mudanças, a nível nacional, nas políticas que tratam do ensino superior.

* Doutor em Educação e Pós-Doutorando em Sociologia na UFRGS.

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