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Viés XY: Como estudantes de biologia homens vêem suas colegas mulheres

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Ed Young para The Atlantic

Tradução: Maíra Mendes

Em três grandes classes, os homens superestimaram as habilidades de estudantes homens em relação a mulheres igualmente talentosas e objetivas.

Nos últimos três anos, Sarah Eddy e Daniel Grunspan pediram a mais de 1700 graduandos em Biologia da University of Washington para nomear colegas de classe que eles achavam que eram “fortes no seu entendimento do material de aula”.  Os resultados foram preocupantes mas previsíveis. Os estudantes homens subestimaram duas colegas mulheres, nomeando com maior frequência outros homens ao invés de mulheres que tinham melhor desempenho.

Digamos da seguinte maneira: Para os homens nestas classes, uma mulher precisaria, para obter um A, do mesmo prestígio que um homem recebe para obter um B.

“Muitas pessoas fazem a suposição de que as questões de gênero em biologia não existem mais porque muitas mulheres se matriculam”, diz Eddy. “Mas sabemos que existem fortes preconceitos inconscientes na comparação da ciência para os homens. Eles estão lá no ar”.

Seu estudo é o mais recente a mostrar os desafios enfrentados pelas mulheres na ciência, tecnologia, engenharia e matemática (Science, Technology, Engineering, and Math – STEM). Nos EUA, as mulheres conquistam cerca de metade dos doutorados nessas áreas, mas muitas desistem em cada etapa da carreira, que de forma que os homens sempre dominam os altos escalões. Como dito por Helen Shen na Nature, as mulheres representam “apenas 21 por cento de professores de ciência plenos e 5 por cento dos professores de engenharia plenos” e “em média, elas ganham apenas 82 por cento do que os cientistas do sexo masculino ganham nos Estados Unidos – e ainda menos na Europa.”

As causas deste desgaste são múltiplas, mas a discriminação sexual é uma parte indiscutível do mesmo. As mulherem nas STEM relatam repetidaamente terem experienciado assédio sexual, serem confundidas com pessoal administrativo, serem forçadas a se testar num grau que os seus colegas do sexo masculino não são, serem orientadas a se comportar de maneiras mais masculinas, agressivas e diretas, e ao mesmo tempo enfrentando reações por fazê-lo.

E diversos experimentos cuidadosos têm mostrado que ambos os membros da faculdade – professores homens e mulheres – são mais propensos a gastar o seu  tempo de tutoria com homens, responder a e-mails de homens,  pedir explicações a homens nas aulas, avaliar melhor candidatos (supostamente) masculinos tão competentes e contratáveis quanto idênticos do sexo feminino, e contratar um homens para trabalhos que exigem matemática.

Estes vieses, que por vezes se manifestam abertamente e por vezes insidiosamente,  criam um ambiente  em que coletivamente as mulheres se sentem como se não pertencessem àquele lugar, em que não são valorizadas, e em que as chances estão contra elas.

Começa cedo. Eddy tem estudado o curso de graduação em Biologia da Universidade de Washington por alguns anos para tentar entender como os vieses atuam entre os próprios estudantes. Ela juntou-se a Daniel Grunspan, um antropólogo que está interessado em como a informação se espalha dentro de grupos. Eles examinaram três grandes classes de 196, 759, e 760 estudantes respectivamente, pedindo-lhes para nomear colegas especialmente fortes em várias matérias ao longo do ano letivo. Eles descobriram que os homens consistentemente recebem mais indicações do que as mulheres, e esse viés só piorou conforme o ano passou. A pergunta é: Por quê?

Desempenho? Homens têm notas melhores do que as mulheres nas três classes, mas a diferença foi estatisticamente significativa apenas em uma; mesmo assim, os resultados diferiram em não mais de 0,2 de uma nota média. Participação? Os instrutores da classe julgaram que os homens eram mais “objetivos” do que as mulheres , e o trabalho anterior de Eddy mostrou que as mulheres constituem 60 por cento dos alunos, mas apenas 40 por cento das vozes ouvidas na sala de aula.

Mas, mesmo após o ajuste para esses dois fatores, a equipe descobriu ainda que estudantes do sexo masculino desproporcionalmente nomearam outros homens, dando-lhes um impulso equivalente a um aumento de 0,77 na média do curso. Em contrapartida, as estudantes do sexo feminino não apresentaram tais vieses, atribuindo a outras mulheres um impulso insignificante de apenas 0,04 pontos na média do curso. Como a equipe escreveu: “Nesta escala, o viés de gênero dos entrevistados masculinos é de 19 vezes o tamanho das entrevistadas femininas “.”

A equipe também descobriu que as “celebridades’ – os três estudantes em cada classe com o maior número de indicações, eram todos homens. Claro, eles tiveram boas notas e intervêm com frequência, mas todos eles tinham colegas do sexo feminino que foram igualmente objetivos, com notas tão altas quanto. Como Grunspan e Eddy escreveram: “Parece que ser homem é um pré-requisito para os alunos alcançarem o status de celebridade dentro dessas salas de aula.”

“Eles entenderam o certo disto”, diz Kate Clancy da University of Illinois em Urbana-Champaign. “Este trabalho é consistente com as maneiras pelas quais vieses implícitos influenciam quem tendemos a enxergar como cientista – se associamos culturalmente masculinidade com habilidades científicas, faz sentido que nós supervalorizemos as contribuições dos homens na sala de aula de ciência.”

“Também é muito consistente com a experiência natural em que estive nos últimos 10 anos como uma cientista mulher casada com um cientista homem”, acrescenta ela. “A faculdade feminina em que eu comecei a tutorar nos últimos anos relata a mesma coisa: Elas têm que mendigar e implorar e comprar café para colegas um milhão de vezes antes que alguém associe sua experiência com o seu nome.”

Eddy espera que preconceitos ainda mais fortes se escondam em outros campos de STEM. Afinal, existem estereótipos negativos ainda mais fortes sobre a capacidade feminina em física, matemática e engenharia. E nestas matérias, as mulheres são geralmente minoria nas classes. Elas têm que lidar não só com os mesmos preconceitos que enfrentam estudantes de biologia, mas também com  a ameaça do estereótipo— um  fenômeno bem documentado em que a ansiedade em se encaixar num estereótipo negativo dificulta as performances de pessoas de grupos minoritários.

Mas Eddy considera como um sinal de esperança que as mulheres do estudo não apresentaram vieses em relação a colegas do sexo feminino, especialmente já que outros pesquisadores descobriram que as discriminações de gênero existem entre docentes do sexo feminino. “É esperançoso”, diz ela. “Talvez as coisas estão mudando culturalmente, ajudando as mulheres a superarem esses preconceitos históricos.”

Ela também testou alguns truques psicológicos que têm ajudado estudantes a lidar com a ameaça do estereótipo em ensaios anteriores, incluindo exercícios simples de escrita destinados a combater a ameaça do estereótipo, afirmando valores de um aluno. Outras “soluções band-aid” podem ajudar também, inclusive fazendo mais trabalhos com pequenos grupos em que as mulheres se sentem mais confortáveis participando, ou terem mais modelos de mulheres à frente. Os instrutores nas aulas que Eddy estudou eram quase todos homens, e talvez não seja por acaso que aquele com a solitária instrutora mulher também tivesse menores preconceitos de gênero.

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